sexta-feira, 28 de setembro de 2012



se algum dia pensares em ser uma doença
avisa-me
para que eu possa fechar todos os médicos
num quarto escuro
e andar em volta de ti até ganhar contágio
 
tenho um pedido a fazer:
se algum dia pensares em ser uma doença
por favor, sê contagiosa
 
nuno travanca







não gosto de vodka

gosto de biscoitos gelados de baunilha
gosto de noites inteiras de vinho tinto
e poemas do eugénio – hoje deu-me para aqui
talvez saudades
 
agrada-me o travo doce do martini
uma vez que já não posso gin –
por causa da idade e da inocência

e sobretudo gosto do teu sorriso gosto mesmo
gosto das tuas escolhas também

gosto de me sentir miúdo às vezes
cuido que talvez seja para poder gin
gosto de dizer palermices – um génio no métier

e gosto de acabar um poema
tal qual o comecei

é que eu verdadeiramente
– não é por mal 
não gosto de vodka

nuno travanca




já era tarde quando entraram
fecharam a porta à chave
fecharam a campainha à chave
fecharam a boca à chave
fecharam o gesto à chave
fecharam o sorriso à chave
o soluçar do choro à chave
fecharam a entrada do metro
a cidade inteira à chave
e a luz, água, gás, à chave
cada recanto das suas viagens à chave
fecharam os estores à chave
as memórias à chave
fecharam o forno à chave
fecharam a cama à chave
fecharam-se completamente à chave

a alegria de viver à chave
e quando deram conta já era tarde
para abrir o que fosse

quando
a chave se fechou à chave 

 
nuno travanca



só para não abrir o guarda-chuva
às vezes dou-me ao trabalho de sorrir

outras não o levo
trago-te a ti sempre chova que não chova

poupas-me o trabalho

que às vezes me dá
sorrir
 
nuno travanca
 



não que eu creia que a minha ignorância
tem um início além da via láctea

mas o bafo quente contra a pele
vai para além do entendimento
sei-o
é muito mais do que eu possa
 
nuno travanca