terça-feira, 2 de outubro de 2012



pelo caminho
o cenário vai rompendo
as largas avenidas dão a lugar nenhum
mas ficam
para sempre

e um dia.

nuno travanca

sexta-feira, 28 de setembro de 2012



se algum dia pensares em ser uma doença
avisa-me
para que eu possa fechar todos os médicos
num quarto escuro
e andar em volta de ti até ganhar contágio
 
tenho um pedido a fazer:
se algum dia pensares em ser uma doença
por favor, sê contagiosa
 
nuno travanca







não gosto de vodka

gosto de biscoitos gelados de baunilha
gosto de noites inteiras de vinho tinto
e poemas do eugénio – hoje deu-me para aqui
talvez saudades
 
agrada-me o travo doce do martini
uma vez que já não posso gin –
por causa da idade e da inocência

e sobretudo gosto do teu sorriso gosto mesmo
gosto das tuas escolhas também

gosto de me sentir miúdo às vezes
cuido que talvez seja para poder gin
gosto de dizer palermices – um génio no métier

e gosto de acabar um poema
tal qual o comecei

é que eu verdadeiramente
– não é por mal 
não gosto de vodka

nuno travanca




já era tarde quando entraram
fecharam a porta à chave
fecharam a campainha à chave
fecharam a boca à chave
fecharam o gesto à chave
fecharam o sorriso à chave
o soluçar do choro à chave
fecharam a entrada do metro
a cidade inteira à chave
e a luz, água, gás, à chave
cada recanto das suas viagens à chave
fecharam os estores à chave
as memórias à chave
fecharam o forno à chave
fecharam a cama à chave
fecharam-se completamente à chave

a alegria de viver à chave
e quando deram conta já era tarde
para abrir o que fosse

quando
a chave se fechou à chave 

 
nuno travanca



só para não abrir o guarda-chuva
às vezes dou-me ao trabalho de sorrir

outras não o levo
trago-te a ti sempre chova que não chova

poupas-me o trabalho

que às vezes me dá
sorrir
 
nuno travanca
 



não que eu creia que a minha ignorância
tem um início além da via láctea

mas o bafo quente contra a pele
vai para além do entendimento
sei-o
é muito mais do que eu possa
 
nuno travanca

segunda-feira, 6 de agosto de 2012


e se o Nilo antes de ter uma alcofa
tivesse tido pés gigantes, ossadas inimagináveis

se nesse tempo houvesse esplanadas
e os vapores dum café fossem intenso nevoeiro
 
se um corte de lâmina afiada
provocasse um tamanho dilúvio
que haveria dali em diante
o mar de se chamar vermelho 
 
e quando a chávena viajasse à boca
se ouvisse tanto, e sentisse mais
que haveria alguém de dizer o que aí viria:
um temporal medonho
 
e ainda se o mármore do tampo destas mesas
não existisse há milhões de anos

nem fosse ermo sítio nenhum
e a Grande Arca ainda estivesse lá

e não me digam que em vez do Sol
está alguém

ou que o Sena é onde a morte outrora
chapinhou

não me digam nada disso

sobretudo não me falem em sereias
e lobos do mar

e de como os chimpanzés tudo sabem
não querem é contar.
 
nuno travanca
 

segunda-feira, 23 de julho de 2012


 





quando vieste
e os teus olhos se puseram nos meus
logo me demorei na partida
 
nuno travanca

domingo, 22 de julho de 2012


ele mostra-nos as mandíbulas
trauteia uma lírica ausência
uma árdua caminhada até nenhures
ele faz a sua pose triunfante
e elas vão atrás, eles vão atrás
vão todos atrás, transformados
em convidados para a grande inauguração

ele vai e leva o seu umbigo que perpetua
por entre o auspício nobre de animal
que almeja o vagar, a quietude
e a furiosa celeridade, o sismo

ele tem bem delineado o seu território
ora suspenso num sorriso sobre os dedos
ora por cima do último andar

ele parte e ele regressa, viaja por todo
o mundo e todo o mundo viaja com ele
ele é o amor, e hoje eu o transporto.
  
é para onde?

nuno travanca


segunda-feira, 16 de julho de 2012


    
tinha na terra uma andorinha
coberta por pétalas, seis
e um grande lago limítrofe
permanecia no âmago das
fontes que desabrocham
ao regresso definitivo,
    
assim velejo a primavera
de ouro em ouro
como um pequeno,
à superfície,
malmequer
    
que leva de comer
ao seu Príncipe.
    
no princípio
rezava assim,
    
conto  
     

nuno travanca
    




a delícia da queda
em breve ocaso da luz

reduz-se ao teu 
sorriso suspenso

mora agora num rumor
na tua pele

na matéria habitável
meu amor

que estremece
e é irresistível

que percorre
e é soma de corpos

sentidos
a que também eu te pertença


nuno travanca


terça-feira, 10 de julho de 2012

ela sobe pelo alfabeto do gesto

beija sofregamente
entre uma taça de vinho e o sorriso

os nós dos dedos
quando existe na palma da mão trémula
   
e nunca mais sai essa mão no peito


ela sobe pelo alfabeto do gesto
enquanto o diabo esfrega o olho



nuno travanca
esta é a sombra fresca da minha solidão,
não há nada de escuro nisso nenhum prodígio oculto
que reapareça pela obscuridade inclusa na pele do vagar
   
esta é a profecia nómada em que te incluo
aquém da lâmina, do traço gráfico e onírico
   
esta é a misericórdia que se pende
pelo golpe de asa mudo
   
pela sombra aguçada dos nossos corpos permeáveis
fresca, fresca como a tua carne tenra

nuno travanca

terça-feira, 3 de julho de 2012

entre o linho da cama
palavras e gestos contraídos,
gastos

estendem-se as mãos trémulas
o corpo curvado

como se fosse último

e embalando o beijo
nas pesadas pálpebras

está o sono nu e intacto
até ao romper da aurora
um desassossego órfão 
de retrato
sem temor
entre o linho da cama
e o apontamento da religiosidade
que é gasto
nuno travanca


há um ligeiro vibrar perpétuo
no segredo do teu rosto

  
e a paisagem reinventada do amor
adivinha-se
 
pressente-se o dia do juízo da
semente.
 
 
nuno travanca

 

sábado, 30 de junho de 2012





quando os dois sozinhos é o mais breve instante
o regresso é já sempre uma dança interminável

porque há sílabas vertiginosas para a celebração
e são tornados essenciais todos os seus modos
 
nuno travanca
 
o relógio da estação marcava
dezanove e quarenta

um alto e entroncado homem
sorria de um dos lados da linha

todos os dias

do outro sorria uma mulher
com os seus dezanove
e quarenta anos

a reter, os brincos da mulher
estridentes de silêncio

e as botas dele
invulgarmente mudas

a dilecção dela
eram homens pontuais

a dele mulheres
sorridentes ao silêncio

dia dezanove de um mês
invernoso
do ano de quarenta

de um lado da linha
não havia vislumbre
de mulher ou homem

e do outro
também não

nuno travanca

na extensão imanente dos teus púberes dedos
outra linguagem
centelha apertada no corpo
desfeita pela lonjura das sombras




a letra levada a extremos
holograma da pele
investido em ângulos mais fracos
cada vez mais fracos




um prelúdio de esquecimento
gestação fúnebre do instante




o semblante do lugar
em puro desfasamento
afastado da luxúria
ao encontro da rugosidade do papel




dedos púberes e incompletos
registo óbvio da gnose
da leviandade
do próximo raio de tinta




o corpo
conteúdo da brevidade escutada




a centelha a desabrochar
no toque
  
nuno travanca

os pássaros dissertam sobre o reflexo
esvoaçam noite afora

por cima do quarto
sobre corpos profusos

recordam todos os quartos
que submergiram

não se afastam das costas

e têm ondas a crescer no peito
que nunca foram senão cultivadas

onde se suspendem [no lago]
há peixes espectro
vários reflexos e luzes estudo

se atentos
ocupam-se de ninhos

e seguem sempre viagem
apesar de

nuno travanca


quinta-feira, 28 de junho de 2012


o que disserem os teus olhos
pesam-me nos lábios foscos

as breves alegorias já são cantatas
e os meus ouvidos agoniam

é decerto o silêncio que um inocente
não pode

à porta chamam-se os de dentro
na mudez provável

os nós dos dedos já não somos nós
e doem-me tanto os teus olhos


nuno travanca

surgiu por entre o recorte das árvores
um incêndio ateado às madrugadas

a recordação

aquela primeira e arrebatada manhã
onde o verbo sonhou ser grande

e depois adormeceu



nuno travanca



há por dentro da noite
uma luz morena, quase a descoberto

e a pressa do bosque surge-lhe objectiva
pelo lado de cá da névoa

palmilhava-lhe a memória em círculos
em pequenos prazeres que ao corpo escapam

pela rua acima, junto ao café central
a copa das árvores também bolinava

como ao sono,

há por dentro da noite um sono, 
um vento, luz,
e o anseio pelos dias que hão-de ser memória.

morena.

quase a descoberto.


nuno travanca