sábado, 30 de junho de 2012





quando os dois sozinhos é o mais breve instante
o regresso é já sempre uma dança interminável

porque há sílabas vertiginosas para a celebração
e são tornados essenciais todos os seus modos
 
nuno travanca
 
o relógio da estação marcava
dezanove e quarenta

um alto e entroncado homem
sorria de um dos lados da linha

todos os dias

do outro sorria uma mulher
com os seus dezanove
e quarenta anos

a reter, os brincos da mulher
estridentes de silêncio

e as botas dele
invulgarmente mudas

a dilecção dela
eram homens pontuais

a dele mulheres
sorridentes ao silêncio

dia dezanove de um mês
invernoso
do ano de quarenta

de um lado da linha
não havia vislumbre
de mulher ou homem

e do outro
também não

nuno travanca

na extensão imanente dos teus púberes dedos
outra linguagem
centelha apertada no corpo
desfeita pela lonjura das sombras




a letra levada a extremos
holograma da pele
investido em ângulos mais fracos
cada vez mais fracos




um prelúdio de esquecimento
gestação fúnebre do instante




o semblante do lugar
em puro desfasamento
afastado da luxúria
ao encontro da rugosidade do papel




dedos púberes e incompletos
registo óbvio da gnose
da leviandade
do próximo raio de tinta




o corpo
conteúdo da brevidade escutada




a centelha a desabrochar
no toque
  
nuno travanca

os pássaros dissertam sobre o reflexo
esvoaçam noite afora

por cima do quarto
sobre corpos profusos

recordam todos os quartos
que submergiram

não se afastam das costas

e têm ondas a crescer no peito
que nunca foram senão cultivadas

onde se suspendem [no lago]
há peixes espectro
vários reflexos e luzes estudo

se atentos
ocupam-se de ninhos

e seguem sempre viagem
apesar de

nuno travanca


quinta-feira, 28 de junho de 2012


o que disserem os teus olhos
pesam-me nos lábios foscos

as breves alegorias já são cantatas
e os meus ouvidos agoniam

é decerto o silêncio que um inocente
não pode

à porta chamam-se os de dentro
na mudez provável

os nós dos dedos já não somos nós
e doem-me tanto os teus olhos


nuno travanca

surgiu por entre o recorte das árvores
um incêndio ateado às madrugadas

a recordação

aquela primeira e arrebatada manhã
onde o verbo sonhou ser grande

e depois adormeceu



nuno travanca



há por dentro da noite
uma luz morena, quase a descoberto

e a pressa do bosque surge-lhe objectiva
pelo lado de cá da névoa

palmilhava-lhe a memória em círculos
em pequenos prazeres que ao corpo escapam

pela rua acima, junto ao café central
a copa das árvores também bolinava

como ao sono,

há por dentro da noite um sono, 
um vento, luz,
e o anseio pelos dias que hão-de ser memória.

morena.

quase a descoberto.


nuno travanca