segunda-feira, 6 de agosto de 2012


e se o Nilo antes de ter uma alcofa
tivesse tido pés gigantes, ossadas inimagináveis

se nesse tempo houvesse esplanadas
e os vapores dum café fossem intenso nevoeiro
 
se um corte de lâmina afiada
provocasse um tamanho dilúvio
que haveria dali em diante
o mar de se chamar vermelho 
 
e quando a chávena viajasse à boca
se ouvisse tanto, e sentisse mais
que haveria alguém de dizer o que aí viria:
um temporal medonho
 
e ainda se o mármore do tampo destas mesas
não existisse há milhões de anos

nem fosse ermo sítio nenhum
e a Grande Arca ainda estivesse lá

e não me digam que em vez do Sol
está alguém

ou que o Sena é onde a morte outrora
chapinhou

não me digam nada disso

sobretudo não me falem em sereias
e lobos do mar

e de como os chimpanzés tudo sabem
não querem é contar.
 
nuno travanca
 

segunda-feira, 23 de julho de 2012


 





quando vieste
e os teus olhos se puseram nos meus
logo me demorei na partida
 
nuno travanca

domingo, 22 de julho de 2012


ele mostra-nos as mandíbulas
trauteia uma lírica ausência
uma árdua caminhada até nenhures
ele faz a sua pose triunfante
e elas vão atrás, eles vão atrás
vão todos atrás, transformados
em convidados para a grande inauguração

ele vai e leva o seu umbigo que perpetua
por entre o auspício nobre de animal
que almeja o vagar, a quietude
e a furiosa celeridade, o sismo

ele tem bem delineado o seu território
ora suspenso num sorriso sobre os dedos
ora por cima do último andar

ele parte e ele regressa, viaja por todo
o mundo e todo o mundo viaja com ele
ele é o amor, e hoje eu o transporto.
  
é para onde?

nuno travanca


segunda-feira, 16 de julho de 2012


    
tinha na terra uma andorinha
coberta por pétalas, seis
e um grande lago limítrofe
permanecia no âmago das
fontes que desabrocham
ao regresso definitivo,
    
assim velejo a primavera
de ouro em ouro
como um pequeno,
à superfície,
malmequer
    
que leva de comer
ao seu Príncipe.
    
no princípio
rezava assim,
    
conto  
     

nuno travanca
    




a delícia da queda
em breve ocaso da luz

reduz-se ao teu 
sorriso suspenso

mora agora num rumor
na tua pele

na matéria habitável
meu amor

que estremece
e é irresistível

que percorre
e é soma de corpos

sentidos
a que também eu te pertença


nuno travanca


terça-feira, 10 de julho de 2012

ela sobe pelo alfabeto do gesto

beija sofregamente
entre uma taça de vinho e o sorriso

os nós dos dedos
quando existe na palma da mão trémula
   
e nunca mais sai essa mão no peito


ela sobe pelo alfabeto do gesto
enquanto o diabo esfrega o olho



nuno travanca
esta é a sombra fresca da minha solidão,
não há nada de escuro nisso nenhum prodígio oculto
que reapareça pela obscuridade inclusa na pele do vagar
   
esta é a profecia nómada em que te incluo
aquém da lâmina, do traço gráfico e onírico
   
esta é a misericórdia que se pende
pelo golpe de asa mudo
   
pela sombra aguçada dos nossos corpos permeáveis
fresca, fresca como a tua carne tenra

nuno travanca

terça-feira, 3 de julho de 2012

entre o linho da cama
palavras e gestos contraídos,
gastos

estendem-se as mãos trémulas
o corpo curvado

como se fosse último

e embalando o beijo
nas pesadas pálpebras

está o sono nu e intacto
até ao romper da aurora
um desassossego órfão 
de retrato
sem temor
entre o linho da cama
e o apontamento da religiosidade
que é gasto
nuno travanca


há um ligeiro vibrar perpétuo
no segredo do teu rosto

  
e a paisagem reinventada do amor
adivinha-se
 
pressente-se o dia do juízo da
semente.
 
 
nuno travanca

 

sábado, 30 de junho de 2012





quando os dois sozinhos é o mais breve instante
o regresso é já sempre uma dança interminável

porque há sílabas vertiginosas para a celebração
e são tornados essenciais todos os seus modos
 
nuno travanca